Vejo o sol subir e descer o muro à minha frente. No seu percurso diário, apanha o autocarro quase sempre à mesma hora. Uma vez por outra chega atrasado um ou dois minutos, mas não o suficiente para que eu perca o espectáculo.
Tenho lugar cativo.
Assisto ao desfile, ao filme e ao torneio.
Durmo, acordo, sonho acordada.
Vejo-te as mãos, os olhos, a boca.
Anseio o teu toque, o teu olhar, o teu sabor.
Nem sempre ficas ao meu lado, para assistir à vida a passar.
Por vezes, passas dias sem aparecer.
Mas acabas por chegar, mais cedo ou mais tarde.
No entretanto, perco os autocarros que passam porque estou distraída e o sol aborrece-se comigo porque não lhe dou atenção.
O que acabo por nunca lhe admitir é que a tua intermitência começa a fazer concorrência aos próprios raios do sol.


