No fim de contas, acabamos por encontrá-las onde menos esperávamos...
Devíamos era trazer todos o sol na algibeira. Era bem mais fácil.
Sol de bolso...a ver se não me esqueço de registar a patente.
Para J., #2
Despe a pele ao fim do dia, quando chega a casa.
Pendura-a a secar de todas as mentiras que diz a si mesmo e do orgulho que engole enquanto caminha no arame.
Acrobata perfeito no limbo.
Perdido de si e achado nas esquinas a caminho de mais uma noite.
Descrente do mundo, descrente de tudo.
Cerra os olhos, cerra os dentes, cerra os punhos.
E aguenta mais uma viagem.
Rói com os dentes as amarras.
Don’t let the bastards grind you down.
Acta
Ponto1.
Dado que o edifício, no geral, encontra-se neste momento mais resistente que antes, apresentando apenas algumas pequenas brechas na armadura - parte natural do decorrer dos anos - decidiram os condóminos não proceder a planos a longo prazo para este ano civil, pelo que não foi adjudicada qualquer intervenção.
Ponto 2.
A reunião durou menos tempo que o previsto dado que os estragos verificados no ano transacto foram rápida e cuidadosamente tratados, implicando, assim, menos custos emocionais que o inicialmente previsto.
Ponto 3.
Caso venha a ocorrer algum tipo de intervenção, ficou decidido por maioria que a mesma seja adjudicada sem necessidade de nova reunião dado que, após breve discussão, foi consensual que há situações que pura e simplesmente não se conseguem prever e que são, por esse mesmo motivo, muito melhores assim (mesmo que isso implique um assalto ao apartamento do inquilino do 2º esquerdo, Mr. Heart himself).
Ponto 4.
Foi ainda acordado manter a estreita relação entre condóminos que se verificou até agora, assente no respeito e compreensão, estendendo uma mão sempre que é preciso, dando um olhinho quando necessário.
Ponto 5.
Dada a forma positiva como decorreu a criação do Arquivo de 2010, ficando todos os assuntos devidamente classificados e arrumados, decidiram os condóminos continuar a proceder de futuro de forma semelhante. Nada melhor que a casa arrumada.
Não havendo mais a acrescentar, fica a Reunião de Condomínio encerrada.
"És boa a matemática?"
Perco-me no meu perfeito raciocínio linguístico, visual e sensorial.
Associo os três e jogo com a sua plasticidade, atribuindo nomes a sensações inomináveis, sabores às palavras que se desdobram na minha boca e que saboreio em segredo, novos padrões e ritmos ao compasso dos sons que me embalam a imaginação.
E deixo-me divagar.
Não penso em sequências numéricas, raízes quadradas e "noves fora". Aborrece-me a certeza das casa decimais, a discriminação das percentagens e a simplicidade de uma regra de três. E não gosto de pensar dentro de quadrados, trapézios e ângulos agudos.
Prefiro infinitamente os adjectivos, os verbos, os complementos directos e indirectos. Prefiro as cores, as imagens, a contraluz.
Porque posso fazer deles o que quiser, sem limites ou barreiras impostas.
Gosto da sensação de liberdade, das gotas frias no rosto,
de sentir de forma mais nítida e distinta a força do mundo em mim.
Gosto das gotas que escorrem para onde não deviam
e de não me sentir mais uma no rebanho que caminha,
cabisbaixo,
com ar mais soturno e cinzento do que o céu.
E gosto desse céu, a desabar, da promessa de fúria.
E eu, cá em baixo, a senti-lo em cada gota.
While commuting, the laugh of the day:
2010
Capta os sorrisos quando ninguém espera (que são, por isso, genuínos). Capta a imperfeição do quotidiano. Capta os ínfimos gestos, inatos, impensados, humanos.
Esconde-se por detrás desta lente, nova, com que olha agora o mundo.
E vê todas as possibilidades à sua frente.
Só terá que captá-las.
E o mundo será, finalmente, seu.
O Plano
Quem estaria ao seu lado, quem lhe faria companhia na viagem.
E de súbito a escuridão, o resvalar do chão debaixo dos pés.
A visão turva e o não saber mais como respirar.
Perder a razão e ver a torrente de sangue a saltar-lhe do peito.
E a chuva.
E a chuva contida cá dentro.
...
E seguir em frente.
Mais uma ferida aberta.
E um passo em frente.
Um atrás do outro.
I'm hatching some plot
Scheming some scheme...
Aceitou o desafio.
Disse que sim com uma facilidade surpreendente, deixando escapar a verdade antes que a razão pudesse apanhá-la a meio do caminho. De qualquer forma, gostava de dizer: “adoro desafios”, estivesse ou não alguém a ouvi-la. Para se convencer a si mesma e para se obrigar a dar passos em frente.
Gostava do traçar dos planos, das tabelas com prazos e limites, da determinação de objectivos. Da racionalização de momentos e minutos, delimitados e previstos, como se fosse tão simples quanto isso.
Deixou escapar a verdade, sorrateira, por entre os lábios.
Brincou com os seus vestígios, saboreou com a língua o seu ténue rasto e mordeu os lábios pelo bem que isto lhe sabia. A verdade estava cá fora, nada a fazer quanto a isso. Agarrou instintivamente na caneta e escreveu no primeiro pedaço de pele que apanhou a jeito (que nem era, sequer, seu).
Deixou que lhe inflamassem o ego, um flirt que lhe sabia bem por sabê-lo raro e por, lá no fundo, não acreditar nele.
Sentada, os ataques vinham de todos os lados:
- das palavras que a confrontavam à sua frente;
- das palavras que, sussurradas ao ouvido, a deixavam com a emoção à beira da pele;
- das palavras que, do fundo da mesa, lhe gritavam e ficavam a pairar, nada subtis, no ar (misturadas com fumo, riso e promessas).
As palavras, sempre as palavras.
E conseguia listá-las assim, entre travessão e ponto e vírgula, com todas as sílabas a que tinham direito. Desafiadas e, simultaneamente, desafiadoras. Brincou uma vez mais com a verdade, nos lábios, saboreada e multiplicada no calor honesto dentro de si. Sabiam-lhe a vinho, a sol e a futuro.
E, por fim, agarrou nas palavras e fez delas o que sempre quis fazer mas nunca tinha conseguido. Perante todos, disse: “é este o plano…”
Why not?
Fiquei a saborear a ideia e ajudei-a a descer com dois goles de tinto.
Pousei o copo na mesa e pensei:
Preguiça, sim.
Preguiça de arrumar as ideias em capítulos ordenados, em folhas paginadas, em discursos coerentes.
E medo, também.
De vir a ter em mãos histórias que rumem a finais que eu queria diferentes.
Mas nem é sequer a primeira vez que tenho esta conversa, que me dizem sem rodeios isto.
O fim do ano está aí à porta e, fazendo contas à vida, tenho mais motivos para sorrir do que o contrário.
Porque não escrevê-los, também?
A Resposta
De todas as vezes que tentei escrever, desisti a meio.
De todas as vezes que tentei escrever-me, escrever-te.
Não sei porque fujo assim que vejo uma porta aberta, porque apago as luzes à passagem, porque não te digo “até logo”. Se calhar até sei, mas recuso-me a admitir o medo, os receios, as inseguranças, porque é muito mais fácil fugir e refugiar-me na sacanice da saída mais próxima, od caminho mais rápido, dos atalhos. Se calhar é porque não gosto de becos sem saída. Ou porque quando me encosto à parede vês a totalidade de quem sou.
Não preciso de carimbos que legitimem isto: sou um fraco. Mas um fraco com fôlego suficiente para correr a distância que for necessária até me encontrar na segurança e na recompensa da altivez, estúpida, de quem se acha dono da verdade. Não são precisas 25 linhas numa folha azul para resumir em apenas uma frase: sou demasiado complicado. Ou simples. Ou frágil, a fingir-me de forte.
Dá-lhe o nome que quiseres, mas não deixes nunca de querer ler-me. De encurralar-me. De prender-me quando vou a fugir. Porque fugir (e não voltar) não é ganhar asas. Ganhar asas é ficar, poder voar (quando quiser) e regressar depois de cada voo. A ti.
Subscrevo-me, de coração aberto,
….
A carta
Preciso que escrevas.
Peço-te que o faças, assim, sem artifícios, sem entrelinhas, sem dificuldade ou orgulho ferido. Disponho-me, vulnerável, com um “por favor”.
Quero ler-te, preciso de ler-te.
Para perceber a tua persistência, a tua ausência e a tua intermitência.
Para perceber porque apagas a luz antes de teres saído da sala, porque desligas o telefone antes de te despedires, porque trancas as portas dos sítios onde sabes que vais regressar mas deixas escancaradas as portas dos locais onde te recusas a voltar.
Preciso que escrevas em papel azul, de 25 linhas, timbrado e aprovado por qualquer entidade que possas considerar relevante, os teus quês e porquês.
Subscrevo-me, de coração aberto,
…
How are you intelligent?
The right question to ask is the one above. The difference in these questions is profound. The first suggests that there's a finite way of gauging intelligence and that one can reduce the value of each individual's intelligence to a figure or quotient of some sort. The latter suggests a truth that we somehow don't acknowledge as much as we should - that there are a variety of ways to express intelligence, and that no one scale could ever measure this."
... fears, frustrations and the utter feeling of hopelessness...
A boy and a girl
He lived on a mountain and had many friends. He had long conversations with the trees about the meaning of life and engaged in long discussions with clouds about the shadows cast on the forest floor. He spoke out clearly and could scream from the top of his lungs, by the edge of a cliff, calling out faraway winds or constellations (even though he never did). He slept on a bed of leaves and woke every morning with the sun on his face. If the going got tough, he didn’t get going. He faced the trouble head on and lived to tell the story (which he wrote down not even bothering to change the names).
His days were full and he hardly ever had to take refuge in dark places. He smiled, and joked and made funny remarks. And everyone loved him and no one saw him cry. Above all, he never let his guard down and, though it didn’t seem like it, he never let anyone in.
Once upon a time there was a girl.
She lived in the bottom of the ocean and had very little friends. She had long conversations with the passing currents and the giants of the deep. She never engaged in discussions and hardly ever spoke about how she truly felt. She often felt like screaming, from the top of her lungs, but every time she did, all it came out was silence and loneliness. She dreamt of stars and constellations, of feeling the wind on her face, of climbing up a mountain to stand on the edge of a cliff. She fell asleep and woke every morning surrounded by darkness but tried her very best to see light in everything (like the hidden treasures only she knew existed, or the way she could see beauty in everything). The going was always tough and the scars were there to prove it (which she didn’t even try to disguise).
Her days were full with the vastness of the ocean and she kept taking shelter in dark places. She smiled a lot (imagine that!) but cried even more. Above all, she never let her guard down and despite everything she never let anyone in.
And one day…all of this changed. And that’s how the (real) story goes.
The way of life can be free and beautiful. But we have lost the way.
Greed has poisoned men's souls, has barricaded the world with hate; has goose-stepped us into misery and bloodshed.
We have developed speed but we have shut ourselves in machinery that gives abundance has left us in want. Our knowledge has made us cynical, our cleverness hard and unkind.
We think too much and feel too little:
More than machinery we need humanity;
More than cleverness we need kindness and gentleness.
Without these qualities, life will be violent and all will be lost.
(...)
The misery that is now upon us is but the passing of greed, the bitterness of men who fear the way of human progress: the hate of men will pass and dictators die and the power they took from the people, will return to the people and so long as men die [now] liberty will never perish. . .
Soldiers: don't give yourselves to brutes, men who despise you and enslave you, who regiment your lives, tell you what to do, what to think and what to feel, who drill you, diet you, treat you as cattle, as cannon fodder. Don't give yourselves to these unnatural men, machine men, with machine minds and machine hearts. You are not machines. You are not cattle. You are men. You have the love of humanity in your hearts. You don't hate, only the unloved hate. Only the unloved and the unnatural. Soldiers: don't fight for slavery, fight for liberty.
(...)
Look up! Look up! The clouds are lifting, the sun is breaking through. We are coming out of the darkness into the light. We are coming into a new world. A kind new world where men will rise above their hate and brutality.
The soul of man has been given wings, and at last he is beginning to fly. He is flying into the rainbow, into the light of hope, into the future, that glorious future that belongs to you, to me and to all of us. Look up.Look up.

