A long time ago...I was in love
With the sun.
With the way it kissed my skin, how it lit up my smile.
The way it cast my shadow, stretched out beyond my reach.
With the different shades it wore throughout the day,
from a bright blinding white to a torrid dying red.
A long time ago... I was in love with the sun.
But then I moved to a place made of clouds.
A long time ago...I was in love
With the flowers.
With the way they bloomed where they weren't supposed to.
With the way they needed my care and my voice, once in a while.
With the wilderness of their shapes, colours, smells.
A long time ago...I was in love with the flowers.
But then I moved to a place made of concrete.
A long time ago...I was in love.
With you.
With the truth in your words and the way you made me sigh.
With your touch in every inch of me.
With the way we heard the same song.
A long time ago...I was in love with you.
But then I moved to a place made of nothing.
But all that was a long time ago.
Now I know that...
...the sun still shines above the clouds (and I only need to fly high to reach it)
...the flowers still bloom (in windowsills and on the cracks on the pavement)
...from nothing came everything (and I ended up smiling more than before).
A Long Time Ago
Procuro inspiração, profusão, mas só me sai isto: canta-me uma canção. Pirosa. Melosa. Um "Lady in Red" ou outra que tal. Mesmo fora do tom. Mesmo desafinado. Melhor assim, verdadeiro, sentido. Com alguma vergonha, mas despido de receios. A saber que te oiço e sorrio. Melodia na voz e nesse sorriso. Que o corpo balança, embalado pelo teu olhar. Sabe-me aqui, de peito aberto enquanto cantas para mim.
Vejo o sol subir e descer o muro à minha frente. No seu percurso diário, apanha o autocarro quase sempre à mesma hora. Uma vez por outra chega atrasado um ou dois minutos, mas não o suficiente para que eu perca o espectáculo.
Tenho lugar cativo.
Assisto ao desfile, ao filme e ao torneio.
Durmo, acordo, sonho acordada.
Vejo-te as mãos, os olhos, a boca.
Anseio o teu toque, o teu olhar, o teu sabor.
Nem sempre ficas ao meu lado, para assistir à vida a passar.
Por vezes, passas dias sem aparecer.
Mas acabas por chegar, mais cedo ou mais tarde.
No entretanto, perco os autocarros que passam porque estou distraída e o sol aborrece-se comigo porque não lhe dou atenção.
O que acabo por nunca lhe admitir é que a tua intermitência começa a fazer concorrência aos próprios raios do sol.
Nota de Rodapé
(10) Ao fixar o reflexo dos meus olhos no espelho, já me pareceu muitas vezes que está outra pessoa dentro deles. Observa-me, julga-me, mas não tem voz para se exprimir. Será talvez eu com outra idade, criança ou velho: inocente, magoado por me ver a destruir todos os meus sonhos; ou amargo, a culpar-me pela construção lenta dos seus ressentimentos. Seria melhor se tivesse palavras para dizer-me, mas não. Só aquele olhar lhe pertence. É lá que está prisioneiro."
A porta fechou-se contigo
Levaste na noite o meu chão
E agora neste quarto vazio
Não sei que outras sombras virão
E alguém ao longe me diz
Há um perfume que ficou na escada
E na TV o teu canal está aberto
Desenhos de corpos na cama fechada
São um mapa de um passado deserto
Eu sei que houve um tempo em que tu e eu
Fomos dois pássaros loucos
Voamos pelas ruas que fizemos céu
Somos a pele um do outro
Não desistas de mim
Não te percas agora
Não desistas de mim
A noite ainda demora
Ainda sei de cor o teu ventre
E o vestido rasgado de encanto
A luz da manhã e o teu corpo por dentro
E a pele na pele de quem se quer tanto
(...)
Não desistas de mim
Não te percas agora
Não desistas de mim
A noite ainda demora
Não Desistas de Mim, Pedro Abrunhosa
(Volta e meia escreve destas, que arrancam o coração do peito. Quanto à voz, estamos conversados.)
A simple poem to say "Screw You"
Your little white lies all day long
Got my head spinning in a never ending song
Despite the wind that churns
Through your stupid a-b-c’s
My mouth kept holding back
All the words that sting like bees
Had I known I’d end up like this
Without a single thought of mine
I’d already gathered the courage to say
‘Stick it where the sun don’t shine’
But your blah blah blah
And the way you always sigh
Keep my feet on the ground
with the confidence that
You are just not worth the try
A mala de viagem II
- Trazes sempre tanta bagagem - disse-me com o brilhozinho nos olhos de quem quer arrancar uma conversa que já se sabe em que lençóis vai terminar.
- Sempre te disse que carregava muita bagagem comigo.
- E eu sempre te disse que era mais fácil se a carregássemos os dois.
E viajará, de novo. E os reflexos de quem ajuda a carregar o peso, iluminar-lhe-ão o caminho.
De modos que é isto.
Os passos, uns a seguir os outros, e a surpresa ridícula de sentir vento frio na cara.
Dar por mim a sorrir para os turistas, a trautear músicas enquanto subo ladeiras e a olhar de frente o rio da alma de cada um que nem gente grande. Sentar-me em sítios novos e absorver as esquinas das mesas, as curvas das conversas e o corpo do vinho. Brincar à apanhada e pisar só as pedras azuis da calçada. Soprar com toda a força do meu pensamento e ver nuvens moldadas nas formas que quero. Ouvir fado e piano e palavras soltas e sussurros e dores escritas em garrafas cheias de lágrimas.
E ter saudades e matá-las logo a seguir.
De modos que é isto: há, no fim de contas, muita vida a pulsar nas veias.
Ode to a small death (without mourning)
The engine is weary, tired of all the miles it has seen pass him by.
Its bolts and screws are loose and rusty from all the years of lack of maintenance.
The engine is dying.
Its heart has even skipped a beat or two already.
But he carries on, even though he feels every move being made to crush him down, even though the fuel pumped in is poisonous (a sickening combination of hatred and power).
The engine is dying.
Chocking as he tries to work faster, run faster,
think less, feel less,
humanize, cannibalize.
Consume itself in utter effort.
Escape its outer shell; find another body where he fits perfectly and effortlessly.
The engine is dying.
But he does it ever so silently that life will pass him by.




