2010

Princípios. Finais. Sorrisos. Cullum. U2. Fonseca. Alive. PDL. Laços que se estreitam. Sorrisos. Lágrimas. As suficientes. Certezas. Dúvidas. Londres. Edimburgo. Escócia. Amigos. Tantos. Tão bons. Os de sempre. Os novos. Todos. Cá dentro. A família. A perda. A dor. A revolta. E os laços, mais fortes. As Palavras. Ditas. Escritas. Por dizer. Silenciadas. E a música. Sempre, a música. Perder a conta: aos petiscos, aos jantares, aos copos cheios, aos copos vazios. Os planos. Feitos. Por fazer. Rasurados. Crescer. As feridas abertas. As feridas saradas. Saber que mudei, mas que continuo a mesma. Erguer-me, sempre. E, nas últimas horas do ano, o coração. Cheio.
Coloca o olho por detrás da lente, despreocupada de focos, contraluz ou captações perfeitas. A analogia bem segura entre mãos, atrás da qual se esconde espreitando o mundo como pelo buraco da fechadura. Sem saber ao certo as formas e contornos precisos que encontrará do outro lado. Nada é igual ao que vê quando o que vê é através desta lente. Ficará registado no rolo, não saberá quando ou se chegará a ver a luz do dia. Este olhar preciso, enquadrado e único é apenas seu. E sabê-lo, deixa-a confiante no bom que há guardado nas incertezas.

Capta os sorrisos quando ninguém espera (que são, por isso, genuínos). Capta a imperfeição do quotidiano. Capta os ínfimos gestos, inatos, impensados, humanos.

Esconde-se por detrás desta lente, nova, com que olha agora o mundo.
E vê todas as possibilidades à sua frente.
Só terá que captá-las.
E o mundo será, finalmente, seu.


Step #1

O Plano

Tinha o plano bem traçado. Os passos a dar, os objectivos a atingir.
Quem estaria ao seu lado, quem lhe faria companhia na viagem.
E de súbito a escuridão, o resvalar do chão debaixo dos pés.
A visão turva e o não saber mais como respirar.
Perder a razão e ver a torrente de sangue a saltar-lhe do peito.
E a chuva.
E a chuva contida cá dentro.
...

E seguir em frente.
Mais uma ferida aberta.
E um passo em frente.
Um atrás do outro.

Note to self: be brave.





Every night I have the same dream
I'm hatching some plot
Scheming some scheme...

Aceitou o desafio.

Disse que sim com uma facilidade surpreendente, deixando escapar a verdade antes que a razão pudesse apanhá-la a meio do caminho. De qualquer forma, gostava de dizer: “adoro desafios”, estivesse ou não alguém a ouvi-la. Para se convencer a si mesma e para se obrigar a dar passos em frente.

Gostava do traçar dos planos, das tabelas com prazos e limites, da determinação de objectivos. Da racionalização de momentos e minutos, delimitados e previstos, como se fosse tão simples quanto isso.

Deixou escapar a verdade, sorrateira, por entre os lábios.

Brincou com os seus vestígios, saboreou com a língua o seu ténue rasto e mordeu os lábios pelo bem que isto lhe sabia. A verdade estava cá fora, nada a fazer quanto a isso. Agarrou instintivamente na caneta e escreveu no primeiro pedaço de pele que apanhou a jeito (que nem era, sequer, seu).

Deixou que lhe inflamassem o ego, um flirt que lhe sabia bem por sabê-lo raro e por, lá no fundo, não acreditar nele.

Sentada, os ataques vinham de todos os lados:

- das palavras que a confrontavam à sua frente;

- das palavras que, sussurradas ao ouvido, a deixavam com a emoção à beira da pele;

- das palavras que, do fundo da mesa, lhe gritavam e ficavam a pairar, nada subtis, no ar (misturadas com fumo, riso e promessas).

As palavras, sempre as palavras.

E conseguia listá-las assim, entre travessão e ponto e vírgula, com todas as sílabas a que tinham direito. Desafiadas e, simultaneamente, desafiadoras. Brincou uma vez mais com a verdade, nos lábios, saboreada e multiplicada no calor honesto dentro de si. Sabiam-lhe a vinho, a sol e a futuro.

E, por fim, agarrou nas palavras e fez delas o que sempre quis fazer mas nunca tinha conseguido. Perante todos, disse: “é este o plano…”

Why not?

Sobre a mesa, ao jantar, lançou-me esta: "...tu tens é preguiça de escrever. De escrever a sério."

Fiquei a saborear a ideia e ajudei-a a descer com dois goles de tinto.
Pousei o copo na mesa e pensei:

Preguiça, sim.
Preguiça de arrumar as ideias em capítulos ordenados, em folhas paginadas, em discursos coerentes.
E medo, também.
De vir a ter em mãos histórias que rumem a finais que eu queria diferentes.

Mas nem é sequer a primeira vez que tenho esta conversa, que me dizem sem rodeios isto.
O fim do ano está aí à porta e, fazendo contas à vida, tenho mais motivos para sorrir do que o contrário.
Porque não escrevê-los, também?

A Resposta

De todas as vezes que tentei escrever, desisti a meio.

De todas as vezes que tentei escrever-me, escrever-te.

Não sei porque fujo assim que vejo uma porta aberta, porque apago as luzes à passagem, porque não te digo “até logo”. Se calhar até sei, mas recuso-me a admitir o medo, os receios, as inseguranças, porque é muito mais fácil fugir e refugiar-me na sacanice da saída mais próxima, od caminho mais rápido, dos atalhos. Se calhar é porque não gosto de becos sem saída. Ou porque quando me encosto à parede vês a totalidade de quem sou.

Não preciso de carimbos que legitimem isto: sou um fraco. Mas um fraco com fôlego suficiente para correr a distância que for necessária até me encontrar na segurança e na recompensa da altivez, estúpida, de quem se acha dono da verdade. Não são precisas 25 linhas numa folha azul para resumir em apenas uma frase: sou demasiado complicado. Ou simples. Ou frágil, a fingir-me de forte.

Dá-lhe o nome que quiseres, mas não deixes nunca de querer ler-me. De encurralar-me. De prender-me quando vou a fugir. Porque fugir (e não voltar) não é ganhar asas. Ganhar asas é ficar, poder voar (quando quiser) e regressar depois de cada voo. A ti.

Subscrevo-me, de coração aberto,

….

A carta

Preciso que escrevas.

Peço-te que o faças, assim, sem artifícios, sem entrelinhas, sem dificuldade ou orgulho ferido. Disponho-me, vulnerável, com um “por favor”.

Quero ler-te, preciso de ler-te.

Para perceber a tua persistência, a tua ausência e a tua intermitência.

Para perceber porque apagas a luz antes de teres saído da sala, porque desligas o telefone antes de te despedires, porque trancas as portas dos sítios onde sabes que vais regressar mas deixas escancaradas as portas dos locais onde te recusas a voltar.

Preciso que escrevas em papel azul, de 25 linhas, timbrado e aprovado por qualquer entidade que possas considerar relevante, os teus quês e porquês.

Subscrevo-me, de coração aberto,


You gotta love livin', baby, 'cause dyin' is a pain in the ass.

Work in progress

Stop thinking.
Start talking.
"...we've come to define intelligence far too narrowly. We think we know the answer to the question, 'How intelligent are you?'. The real answer, though, is that the question itself is the wrong one to ask.

How are you intelligent?

The right question to ask is the one above. The difference in these questions is profound. The first suggests that there's a finite way of gauging intelligence and that one can reduce the value of each individual's intelligence to a figure or quotient of some sort. The latter suggests a truth that we somehow don't acknowledge as much as we should - that there are a variety of ways to express intelligence, and that no one scale could ever measure this."

Ken Robbinson, in The Element

"...hoping for the best but expecting the worst,
...are you going to drop the bomb or not?"


And suddenly, it all comes running back...
... fears, frustrations and the utter feeling of hopelessness...



Não saberia viver sem a explosão de cores do mundo guardadas no meu coração.

A boy and a girl

Once upon a time there was a boy.

He lived on a mountain and had many friends. He had long conversations with the trees about the meaning of life and engaged in long discussions with clouds about the shadows cast on the forest floor. He spoke out clearly and could scream from the top of his lungs, by the edge of a cliff, calling out faraway winds or constellations (even though he never did). He slept on a bed of leaves and woke every morning with the sun on his face. If the going got tough, he didn’t get going. He faced the trouble head on and lived to tell the story (which he wrote down not even bothering to change the names).

His days were full and he hardly ever had to take refuge in dark places. He smiled, and joked and made funny remarks. And everyone loved him and no one saw him cry. Above all, he never let his guard down and, though it didn’t seem like it, he never let anyone in.

Once upon a time there was a girl.

She lived in the bottom of the ocean and had very little friends. She had long conversations with the passing currents and the giants of the deep. She never engaged in discussions and hardly ever spoke about how she truly felt. She often felt like screaming, from the top of her lungs, but every time she did, all it came out was silence and loneliness. She dreamt of stars and constellations, of feeling the wind on her face, of climbing up a mountain to stand on the edge of a cliff. She fell asleep and woke every morning surrounded by darkness but tried her very best to see light in everything (like the hidden treasures only she knew existed, or the way she could see beauty in everything). The going was always tough and the scars were there to prove it (which she didn’t even try to disguise).

Her days were full with the vastness of the ocean and she kept taking shelter in dark places. She smiled a lot (imagine that!) but cried even more. Above all, she never let her guard down and despite everything she never let anyone in.

And one day…all of this changed. And that’s how the (real) story goes.

I'm sorry but I don't want to be an Emperor, that's not my business. I don't want to rule or conquer anyone. I should like to help everyone if possible, Jew, gentile, black man, white. We all want to help one another, human beings are like that. We all want to live by each other's happiness, not by each other's misery. We don't want to hate and despise one another. In this world there is room for everyone and the earth is rich and can provide for everyone.

The way of life can be free and beautiful. But we have lost the way.

Greed has poisoned men's souls, has barricaded the world with hate; has goose-stepped us into misery and bloodshed.

We have developed speed but we have shut ourselves in machinery that gives abundance has left us in want. Our knowledge has made us cynical, our cleverness hard and unkind.
We think too much and feel too little:
More than machinery we need humanity;
More than cleverness we need kindness and gentleness.

Without these qualities, life will be violent and all will be lost.

(...)

The misery that is now upon us is but the passing of greed, the bitterness of men who fear the way of human progress: the hate of men will pass and dictators die and the power they took from the people, will return to the people and so long as men die [now] liberty will never perish. . .

Soldiers: don't give yourselves to brutes, men who despise you and enslave you, who regiment your lives, tell you what to do, what to think and what to feel, who drill you, diet you, treat you as cattle, as cannon fodder. Don't give yourselves to these unnatural men, machine men, with machine minds and machine hearts. You are not machines. You are not cattle. You are men. You have the love of humanity in your hearts. You don't hate, only the unloved hate. Only the unloved and the unnatural. Soldiers: don't fight for slavery, fight for liberty.

(...)

Look up! Look up! The clouds are lifting, the sun is breaking through. We are coming out of the darkness into the light. We are coming into a new world. A kind new world where men will rise above their hate and brutality.

The soul of man has been given wings, and at last he is beginning to fly. He is flying into the rainbow, into the light of hope, into the future, that glorious future that belongs to you, to me and to all of us. Look up.Look up.

Charlie Chaplin, in The Great Dictator

Preservation instinct

If she hadn't tried to kill me, I'd be dead, no question. But we've all got a preservation instinct, haven't we? Even if we're trying to kill ourselves when it kicks in.

in A Long Way Down, Nick Hornby
Das possibilidades perfeitas de um Quantos-queres, sai-me esta torrente pelo coração fora...

...da minha parte, não saberia viver sem folhas de papel...
as que sei como se usam,
as que não sei usar,
as que dobro,
as que deixei de dobrar,
as que foram princípios,
as que foram finais,
as que me deram vida,
as que foram mortais.

São muitas as teias,
por nós tecidas,
que suportam,
frágeis,
ventos e tempestades.

Encurralado na indecisão do presente, tão palpável que conseguia tocá-la, sentou-se a analisar as hipóteses, as possibilidades. The worst case scenario.

De forma fria, calculista, procurou perceber os porquês, pôr os pontos nos i’s, ler nas entrelinhas. Mas à razão sobrepunha-se, de forma impune, a emoção que tão depressa lhe acelerava o pulso, a respiração, os certos e os errados.

Queria gritar, queria explodir, queria retorquir na mesma moeda. Ser igual aos sacanas de merda que se lhe apresentavam à frente, todos os dias, que se passeavam impunes, bem à frente do seu nariz. Mandar passear os conceitos, as teorias elaboradas, os pressupostos, as desculpas esfarrapadas e as falsas modéstias. Dizer-lhes na cara que as frases feitas e os clichés já enjoam e que não faz bem a ninguém viver escondido das palavras e dos confrontos.

Divagou nisto até que reparou que lá fora era noite, que todas as luzes do escritório estavam acesas e que, uma vez mais, ele era o único ali.

Destination: Nowhere


Small list of awesome things:
- you
- me
- us



Esta cerca, esta porta para o ilimitado,
e porquê?
Herdámos as cercas, os cadeados, os
muros, as prisões.
Herdámos os limites. E porquê?
Porque não rejeitámos na hora de nascer o que nos concediam e o que não abarcávamos?
É que tínhamos que estar de acordo antes de ser.
Depois de ser e saberaprende-se a cercar e a fechar.
A nossa mesquinha contribuição para o mundo é um mundo mais estreito.

O mar, Pablo Neruda
Encostou-a, com as suas palavras, à parede.
E com a honestidade completa das suas frases traçou o trilho perfeito para o seu coração.
Vulnerável perante os reais argumentos, indefesa perante a tradução da verdade.
Encostada à parede, a deixar ruir os certos, os errados, salva pelas palavras.
Há pessoas que, com o poder das suas palavras, são assim: lean, clean, killing machine.

Fim de semana.
Em fuga.
Vesti a camisa que me pediste que vestisse: a branca.
Dobrada nas mangas.Em desalinho.
Porque a perfeição não é tê-la perfeitamente engomada.
A perfeição é ter-te ao meu lado enquanto a trago vestida.
Tenho o teu abraço cheio com a solidão no meio que não deixa abraçar.
Tenho o teu olhar presente e desenhado o movimento do teu corpo a chegar.
Tenho o teu riso sentado e o mistério do teu lado que preciso desprender.
Tenho o corpo a correr, tenho a noite a trespassar, tenho medo de te ver.
É perigoso este perfume e a memória do teu nome, é de fogo o que nos une.
Tenho espaço indeciso, dá-me mais porque preciso, mais um sopro do que tens.
Deixa andar, deixa ser...quando queres entender o que não podes disfarçar,
escolhes não sentir mas não é teu para decidir, se faz bem ao coração
largar o que há em vão, faz bem ao coração.

Mesmo longe caem rosas como pedras preciosas que confundem a razão.
O mistério do teu lado entre o certo e o errado,bem e mal em discussão.
Volta o teu abraço cheio com o coração no meio, volto eu a disparar.
Não percebo o que é que queres, diz-me tu o que preferes: ir embora ou ficar?
(...)

Tiago Bettencourt, largar o que há em vão
(...cada vez gosto mais disto...)
De mão em mão vão passando:
as histórias
as vivências
os silêncios
as partilhas.

Elos equacionados, redimensionados e ampliados tanto pelo conhecimento como pela inocência:
das palavras
das distâncias
dos momentos.

Abrimos as portas do coração, exposto aos ventos e tempestades e recebemos em troca:
os abrigos
os abraços.

Estendemos a mão, como quem não quer cair, e percebemos que do outro lado também há:
pedaços.

Hold out your hand and never let me fall.
A elevação, a plenitude, o chegar ao topo, ao cume, ao território inexplorado.
Com todos os sentidos: aplicados, multiplicados, cegos de tão perfeitamente alinhados.
A entrega.
A uma voz.
A duas.
A milhares de vozes.
Enquadrou-lhe o sorriso nas mãos e pediu-lhe que não tivesse medo de dar o salto porque, da sua parte, o salto já tinha sido dado.

Agora que chegou oficialmente o Outono, já posso confessar: estou cheia de saudades disto...
Avançou, destemida. Não havia tempo a perder e era preciso vencer a batalha. Sem tempo para planear estratégias, para elaborar planos de ataque, sem por ordem nas tropas que avançavam movidos mais pela emoção que pela razão.

Liderou o caminho, peito aberto, coragem desmedida.
Vestia a armadura cómoda de todos os dias mas via as barreiras a ruírem perante os seus olhos.

Nunca uma batalha fez tanto sentido.
Para a frente, o caminho.
Investidas.
Por mais que o medo lhe consuma o peito, em frente, o caminho...a conquista desse último e derradeiro pedaço...
Pedacei-te. Na minha mente. Lentamente. Ao sabor do meu desejo, da minha expectativa e da tua realidade. Pedacei os teus centímetros à distância e retribuíste com as tuas palavras a treparem por mim acima, por mim adentro. Os teus pedaços perdidos nos meus até não sabermos mais que pedaços são o quê, que pedaços são de quem. Pedaçamos o coração que bombeia descargas que nos percorrem, cavalos à solta no nosso peito em pedaços. Pedaçamos silêncios e os seus desfragmentados pedaços. Pedaçamos a ausência com a impossibilidade de manter longe os pedaços.

E ao pedaçar encontramo-nos. E reencontramos o nosso olhar.

( ...e os pedaços não param...aqui e aqui ...)
There are days when the sun shines brighter on our hearts.
"First of all", he said, "if you can learn a simple trick, Scout, you'll get along a lot better with all kinds of folks. You never really understand a person until you consider things from his point of view - "

"Sir?"

" - until you climb into his skin and walk around in it."

in To Kill a Mockingbird, Harper Lee

You can bring me back the good old days
When flowers blossomed on the windowsill
When I could count the million ways
And each lie, a daffodil.

You can bring me back your soul
You can tear yourself apart
But those lies filled up the hole
Of my bleeding, dying heart.

And nowadays there are a thousand smiles
Growing by the windowsill.
And they will stand a million trials
For I shall follow my own will.
Já to repeti por duas vezes.
The pursuit of love ensues us all.
Mas teimas em não ouvir.
Desconstrui-me. Como faço habitualmente, quando o calor é tão sufocante nas quatro paredes que me vejo forçado a procurar forças em lugares inesperados. Aí chegado, sento-me numa qualquer sombra onde consiga perceber uma brisa, por pequena que seja. Cravo os pés na areia, no chão de ripas de madeira ou empoleiro-os descontraidamente numa outra cadeira à minha frente. Com o fim da tarde que se aproxima, os corpos tostados vão rumar a casa carregados de sal e carregados com a paciência que não têm no resto do ano para ficar presos em filinhas certeiras e empoeiradas. Só quando poucos resistem no areal e as sombras se alongam pelo areal é que eu rumo ao mar, onde entro sem indecisões e mergulho por baixo da primeira onda que vem direito a mim.

E desconstruo-me. Peça por peça. Arranco-as calmamente e elas afundam-se devagar. Depois de totalmente desconstruído, cravo os olhos no céu e fico a boiar por uns minutos ao sabor da corrente. Submerso, oiço unicamente a cadência das ondas ao longe e, mais presente que nunca, forte e calma, a minha própria respiração. Encho o peito de ar e, com todo o impulso que consigo ganhar, mergulho e apanho rapidamente todas as peças do fundo do mar. Assim mesmo, com um único fôlego.

Regresso a terra já inteiro, reconstruído e recriado. Renascido, com sal, água, areia, tudo. Sinto com as mãos cada poro, cada trilho, para ter a certeza que tudo está no lugar devido.
E só aí percebo que me falta um pedaço. Um pedaço que me escapou, que terá sido arrastado pela corrente. Um pedaço que alguém pode muito bem ter visto, apanhado, colocado num outro corpo. Alguém andará agora por aí com um pedaço a mais. Um pedaço de mim.

Balões de Pensamento

Há não muito tempo atrás, numa conversa descontraída, surgiu a ideia: e se tivéssemos balões de pensamento acoplados? Assim mesmo daqueles que vimos na B.D. Balões que revelariam os nossos verdadeiros pensamentos. Um "não" pensado quando os nossos lábios dizem "sim". O que verdadeiramente pensamos em determinadas circunstâncias e por onde a nossa mente às vezes divaga enquanto conseguimos manter, simultaneamente, uma qualquer conversa.

Eu consigo até imaginá-los, imaginar-nos, a andar por aí de balões de pensamento atrás, presos por um cordel, a sobrevoar as nossas cabeças, acompanhando-nos num voo raso. Balões brancos, mais ou menos cheios consoante tenhamos mais ou menos clareza de espírito.

Balões de pensamento cheios de sonhos quando adormecemos, de resmungos quando acordamos, de divagações enquanto conduzimos para o trabalho. Cheios de trauteares de músicas e de melodias irritantes que não nos saem da cabeça. Cheios de conversas verdadeiras, de mentiras inocentes e de uma ou outra palavra que, volta e meia, os outros mereceriam ouvir. Vazios quando nos desiludem. Vazios quando já não há mais nada a dizer. E cheios novamente quando o tanto que há para dizer pode preencher mais que um balão pela vida fora.
Image by Exploding Dog


"What came first, the music or the misery? Did I listen to music because I was miserable? Or was I miserable because I listened to music? Do all those records turn you into a melancholy person?
People worry about kids playing with guns, and teenagers watching violent videos; we are scared that some sort of culture of violence will take them over. Nobody worries about kids listening to thousands - literally thousands - of songs about broken hearts and rejection and pain and misery and loss."

in High Fidelity, Nick Hornby

Olho para o chão. Contemplo os estilhaços. Estão espalhados por todo o lado, à minha volta. Tenho medo de me mexer, não vá eu pisar algum. Inspiro profundamente e ganho coragem para a hercúlea tarefa de os apanhar do chão. Mais uma vez.

Apanho-os, pego com cuidado, um por um, nos pedaços de mim mesma. Observo-os com atenção, tentando perceber até que ponto sobreviveram. Alguns devolvem-me um reflexo que me é estranho, como se não conseguisse reconhecer-me nele. Junto-os a todos e começo a montar o puzzle.

Cabeça, tronco e membros. Estes são os mais fáceis. Umas quantas nódoas negras, um ou outro corte. Nada que um penso rápido e uns dias de repouso não curem. O pior vem depois. As brechas na armadura, a vulnerabilidade cada vez mais à tona. As camadas protectoras a desaparecerem a cada nova queda. Parece-me também que, desta vez, ou ou outro sonho conseguiram fugir. Isto de cair constantemente ao chão começa a deixar sequelas. E começa a não ter muita piada.

Começo, então, a montar o puzzle. E já o conheço quase de cor. As linhas, os contornos, os fios do pensamento. Já arranjei maneira de dar voltas, contornar os hábitos, exaltar as virtudes, remeter os receios para os recantos mais escuros. No final, por mais que tente fazer as coisas de forma diferente, o resultado final é sempre o mesmo.

E cá estou, inteira outra vez, pronta para a luta.

E é quando me meto ao caminho que me apercebo: há um pedaço em mim que não me pertence...apanhei, sem ter reparado, um pedaço de outro alguém.
Na mesa ao lado...

L - Ouve, já me provaste por 'a + b' o teu ponto de vista. Já o percebi. Aliás, percebi-o logo à primeira explicação.

B - Então, concordas.

L - Não, não concordo.

B - A sério, é impossível ter uma conversa contigo!

L - Não, não é. O que se está a passar há 30 minutos não é uma conversa. É um monólogo.

... Suponho que às vezes deve custar ouvir estas verdades.
Teimosia não é ser-se inteiro.
Teimosia é estar constantemente a apanhar os pedaços de nós de cada vez que caem, despedaçados, no chão.

Life in a Day, Christiaan Van Vuuren

Podes falar quanto quiseres do estado das ondas, do vento de noroeste.
Dissertar sobre os milénios dos grãos de areia ou das escarpas vertiginosas.
Podes contar-me detalhes maravilhosos sobre a vida aquática, o enorme desconhecido, cavalos marinhos e estrelas do mar.

Não vou interromper-te quando começares a divagar sobre os raios UV, sobre a sombra e as horas certas de exposição solar. Vou deixar que dissertes acerca dos melhores locais, das praias onde todos estão e onde todos devem estar.

Porque, tão simplesmente, nunca conseguirás perceber o prazer que sinto ao entrar no mar.
Juro que já tentei de tudo. Amordaçá-la, amarrá-la, algemá-la, comprimidos para dormir, tentei distraí-la com histórias ridículas e, por fim, dei-lhe um bilhete só de ida para uma praia paradisíaca e longínqua onde pudesse apanhar o sol que quisesse e me deixasse em paz.

Mas não. Continua aqui. Teimosa, perseverante. A aparecer nos momentos mais inesperados, como quando quero manter um fio de discurso coerente, quando preciso de me concentrar ou quando pura e simplesmente quero dormir.

Nem sequer se preocupa em aparecer sorrateiramente. Instala-se, impõe a sua presença e, mesmo calada, consegue tirar-me do sério.

É a única das personagens que trago na minha cabeça que não me obedece.
Ultimamente diz que quer ser a personagem principal da próxima história ou "irão haver represálias".

Juro que já não sei que lhe fazer.
Aceito propostas, ideias, opiniões.
Entrego-a de bom grado a quem lhe queira dar abrigo nos recantos da imaginação ou nas páginas de um livro. Mas não posso deixar de dizer que ela carrega muita bagagem.

O fim de tarde quente dá-me para isto: pensamentos leves, frescos, ao sabor da corrente e da torrente do pensamento.

Dá-me para perceber que gosto de Sumol de ananás porque é uma viagem directa às garrafas verdes de onde o bebia na infância.
Dá-me para gostar de novos temperos e sabores, de conversas novas e de conversas renovadas.
Dá-me para deixar para amanhã.
Dá-me para litros de água fresca que não me mata a sede mas que me sabe bem.
Dá-me para andar sem rumo à procura da brisa, de uma corrente de ar, de uma porta aberta que convide a entrar.
E para músicas de Verão, com batidas e refrões mais pipoqueiros que os filmes da estação.
Dá-me para sonhar acordada e achar que sou capaz de tudo mas que amanhã trato disso.
Dá-me para fazer planos em cima do joelho e impulsos no último minuto.
Dá-me para renovar amizades, prolongar amizades, confirmar amizades.
Gosto do fim da tarde quente. Dá-me para pôr o mundo em câmera lenta e limitar-me ao por do sol.


Trazia o cabelo preso numa trança e uma infinidade de missangas em torno dos pulsos.
Deitei-me a adivinhar-lhe o passado e presente.
Guardei para ela o futuro, que o saberá, melhor do que eu, ler na palma da mão.

No olhar de menina, a novidade do mundo.
No sorriso sincero, a alma gentil.
O bronze da pele lembrava-me os sonhos,
guardados e cuidados,
cultivados devagar.

Observava, ao largo, o gingar do mundo,
o balanço da multidão,
o compasso das ondas imaginadas.

E ver-se assim, reflectida no espelho, assustava-a de muitas maneiras, pelo impacto real de tudo quanto era e tudo quanto queria ser.
Dois passos em frente.
É quanto basta.


Ir.
Soltar as asas. Repensar as amarras.
Gravar o verde na retina, na memória, no coração.
Por caminhos direitos, por caminhos estreitos.
Começar nas ruas cheias de gente,
percorrer milhas contra a corrente.
Minutos medidos, perdidos, preenchidos.

Voltar.
Com o coração cheio, o sorriso aberto.
A vontade desmedida de querer voltar a fazer planos,
viajar, viajar, viajar.
Regressar com certezas onde haviam dúvidas.
E valorizar momentos passados, partilhados
e desmedidamente verdadeiros.

Ir onde o coração nos comanda.
Voltar onde sempre se pode começar do início.
Voltar de peito aberto para a guerra.
Sem receio.
Haverá sempre um novo "ir".


Vou ali soltar amarras, volto já.
Na languidez do momento,
a estender os fios do tempo,
mergulhados e submersos na contagem decrescente.

Clareza de espirito

Correu pelo corredor numa fúria desesperada.
Conseguiu fechar a porta mesmo a tempo, derrubando pelo caminho

... a jarra com flores
... o casaco pendurado no cabide
... e a réstia de qualquer sentimento que ainda lhe restava.


E, hoje, de novo percebi.
Contigo os momentos perfeitos são sempre assim.
Doces, tão doces.
E uns atrás dos outros.

The Best of Times, Sage Francis



"Se não podes restituir-lhes a vida, cala-te,
diante da morte não se querem palavras."



José Saramago, in O Evangelho Segundo Jesus Cristo
Leio-te como um livro fechado.

Não preciso sequer de te abrir.

A tua história, sei-a de cor.
...my fingertips are holding on to the cracks in our foundations...
Os minutos e as horas apertados contra a multidão.
Tentam esgueirar-se, encontrar caminho, abrir caminho pelo impossível mar de gente que ondula em diferentes compassos e sabores.
Em fila, em gotas, em torrentes de palavras, de canções desconexas, de
private jokes.
De copos cheios, de copos vazios, de corações ao alto para não se derramar uma única gota.

Beat the Devil

Written in stone

The Big Picture

Descubro, ao acaso, peças do puzzle.
Não me lembro de as ter perdido nem consigo sequer imaginar como possam ter ido parar debaixo do tapete, ao bolso de trás das calças ou ao canto mais escondido da memória.
Algumas destas peças nunca as tinha sequer visto antes.
Outras mudaram de forma, com novos encaixes, perfeitos nas suas inusitadas curvas e contra-curvas.
Faltam-me ainda muitas peças.
Mas começa a não me preocupar a sua ausência.
Ao que parece, cedo ou tarde irão aparecer, ou tropeçarei nelas por acaso.

José

Era um homem alto, recto. Raramente curvado. Caminhava direito, distinto da multidão. Não gostava do seu nome, da simplicidade estreita do seu nome que sentia sufocar tudo o que trazia dentro de si. Não gostava de tudo o que lhe era imposto, o que por vontade alheia era obrigado a aceitar.

A aparência serena, o discurso bem pensado. Tudo no lugar certo, da forma socialmente correcta, dentro das barreiras conformadas do expectável. Quando trocava dois dedos de conversa, era amável, educado, suficientemente preocupado e o necessariamente distante. Nunca trocava, em conversas de circunstância mais do que devia. Poucos lhe conheciam inconfidências.
No trabalho tinha colegas. No prédio de dois andares, o "bom dia" dos vizinhos.

E, ao fim do dia, chegava a casa e despia o fato e gravata. Despia o cinzento. Despia os limites que lhe impunham pela janela abaixo e punha a música tão alto quanto podia.

São assim, os génios...


Jamie Cullum, Coliseu 25 Maio 2010

Last night and on this day

Old familiar faces
A couple new places
And all the hot spaces

And a new day with kid's races
and laughter in heartfelt embraces

...ainda as minhas coisas

Maçãs verdes. Morangos. Cerejas. Fruta de Verão, fruta no Verão.
A familiaridade com que as minhas pernas sobem determinadas escadas.
Um "obrigado" sincero. Um "obrigado" sentido.
Momentos de clareza de espírito.
Molhar as bolachas no leite. E leite gelado.
Agarrar num livro e lê-lo com vontade (e aperceber-me de há quanto tempo não o fazia). Conduzir. Conduzir sem destino. Conduzir ao som da música que me move.
Fazer sacrifícios e saber que valeram a pena. Fazer sacrifícios e saber que não valeram a pena mas que aprendi com isso de igual forma.
Sonhar acordada. Dormir a sesta.
Ter histórias para contar e partilhá-lhas com quem quer ouvir, com quem gosta de ouvir.
E pessoas extraordinárias. Absolutamente extraordinárias.
O que eu dava para me levantar cedo esta manhã, ir à missa,
e voltar da Igreja com a cara que trazia o meu vizinho...
Queria era sentir-me ligado a um destino extrabiológico,
a uma vida que não acabasse com a última pancada do coração.

Miguel Torga
As fronteiras.
As barreiras.

O limiar da nossa imaginação,
da nossa percepção e da nossa intervenção.
A capacidade de dizer não.
Sem reservas, sem receios, sem rodeios.

Ganhar de volta o ar suficiente.
Para seguir em frente.
De cabeça erguida, correr a corrida.

Ganhar a coragem, fazer a viagem...
...e regressar cansado, torturado...
... mas nunca vencido.

"This is a story of boy meets girl. But you should know up front, this is not a love story."



People don't realize this, but loneliness is underrated.

Há dias em que te bastam uma cerveja
e cinco metros quadrados de sonhos e conforto.
Nos outros, queres o mundo que está lá fora.
Pegas na minha mão e voas como se o futuro fosse agora,
fosse aqui, fosse teu.
E eu sigo-te.
Seguir-te-ia mesmo de olhos fechados.
Seguir-te-ia a rastejar no asfalto,
a trepar muros infinitamente altos.

Mas nunca, nunca, te deixaria sozinho.


Hoje esqueci-me do casaco em casa.
Esqueci-me de trancar a porta.
E esqueci-me de mim também.


De mãos atadas e pulsos sangrantes.
Ainda assim, espero por ti.
Está sol lá fora.
Mas aqui dentro, é a Lei de Murphy.


É mais difícil dizer "o fim"
quando a viagem valeu a pena.

Infância

Lembro-me que guardavas, debaixo do teu colchão, milhares de pequenas coisas.
Levantavas o colchão, perante o meu ar de espanto, e agias como se fosse a coisa mais natural deste mundo.

E passados todos estes anos, não me lembro bem do que lá guardavas...
Mas lembro-me que havia pequenas regras de organização e, com toda a certeza, não era qualquer pequena coisa que ia lá parar. Devia ser necessário atingir um certo estatuto, atingir um grau de importância tal para ganhar um lugar naquele paraíso de memórias.

Quase consigo imaginar as batalhas travadas debaixo daquele colchão...desenhos, uma revista, um livro, um bilhete de entrada no Jardim Zoológico, milhares de pequenas coisas a lutar por um lugar cimeiro. Para que quando levantasses o colchão, as visses e me mostrasses como se fossem troféus.

Aposto que muitas das coisas que lá imagino nunca chegaram a existir. Fui apenas acrescentando lá as coisas...de tal modo que, na distância da infância, debaixo daquele colchão havia todo um mundo alternativo.
Calei-me.
Frente a ti faltam-me sempre as palavras.
Ou então são de sobra, e tropeçam umas nas outras no desalinho de um fio condutor qualquer.

Por isso, calei-me.
E ouvi-te.
E ouvi os nossos silêncios.

E escrutinei cada pequeno movimento das tuas mãos.
A forma como com elas desenhas certas palavras, a maneira (tão tua) de segurar o cigarro e brincar com ele nos dedos, sem te aperceberes e sem chegares quase a fumá-lo.
A forma como às vezes passas a mão no cabelo, a meio de uma frase e não chegas a terminá-la.
Ou como as escondes nos bolsos quando estás nervoso.

E enquanto o meu olhar passeava, a tentar perceber-te,
o teu poisava desconexo num ou outro movimento que te roubava a atenção.

E, sem que o esperasse, disseste:

Estás tão calada...
Fala. Gosto de te ouvir.
"the people are weary, unhappy, frustrated, the people are
bitter and vengeful, the people are deluded and fearful, the
people are angry and uninventive
and I drive among them on the freeway and they project
what is left of themselves in their manner of driving -
some more hateful, more thwarted than others -
some don't like to be passed, some attempt to keep others
from passing
- some attempt to block lane changes
- some hate cars of a newer, more expensive model
- others in these cars hate the older cars.

the freeway is a circus of cheap and pretty emotions, it's
humanity on the move, most of them coming from someplace
they
hated and going to another they hate just as much or
more.
the freeways are a lesson in what we have become and
most of the crashes and deaths are the collision
of incomplete beings, of pitiful and demented
lives.
when I drive the freeways I see the soul of humanity of
my city and it's ugly, ugly, ugly: the living have choked the
heart
away."


Charles Bukowski, drive through hell
Não digas que te esqueci. Que te perdoei. Que te arredondei aos cantos da memória para te absorver de maneira inocente, de maneira incoerente, de maneira a não ver-te.

Nem penses por um minuto que ainda penso nos teus minutos. E nos meus minutos, em que desesperava por alguns minutos teus.

Nem te ponhas com sorrisos, honestos, desonestos, sacanas até à medula. Não são nem metade do que julgas e os teus olhos não enganam ninguém.

Nem quando negavas o arrepio, o desconforto do confronto. Encostava-te à parede porque queria que, nesse arrepio que negavas, percebesses por fim que tudo tinha acabado.

Mas não digas que te esqueci.
Corro para eles como se fossem a minha salvação.
Como se o naufrago que sou,
a afogar-me num mar de incertezas,
conseguisse ainda vir à tona respirar.
Corro para eles.
Direita aos seus braços.
Aos sons que me consomem inteira.
E neles, enfim, a catarse.

Há momentos que, de tanta luz que teimam em transbordar,
entram por nós adentro...



Hoje.
Dia de Fado Português.
De sol.
De partilha.
De mostrar que há por que viver, por que sorrir.
De um simples encostar da cabeça no ombro.
E um beijo sentido.
De uma única palavra.
Da saudade em nós, por nós.
Desde sempre.
Para sempre.

As Chaves


Normalmente guardamos muitas connosco.
De diferentes tamanhos e feitios.
Umas mais a uso, outras já com ferrugem.
Outras esquecidas.


Guardamos connosco as chaves de todos os momentos felizes, de todas as memórias, de todas as dores, de todos os segredos trancados e das portas abertas de todos os segundos de partilhas.


O poder enebriante dos primeiros dias de sol
é fazer-nos acreditar que tudo é possível outra vez.
Disseste-me que não sabias. Porque as noites eram pequenas.
Mal davas por ti, já estavas a sair debaixo das mantas onde há tão pouco te havias refugiado, sem tempo para pensamentos ou para dar conta dos sonhos que fugiam de mim, segundos antes de adormecermos. E já estavas de novo a pé. Parecia que tinham passado poucos minutos. Parecia que tinha passado uma vida inteira.

O lume ardia todo o dia e as brasas mantinham-se incandescentes até à madrugada. Sob a camada de cinza, o calor que deitavam, ajudava a aquecer-te as mãos.

Ainda assim, via-te a esfregá-las uma de encontro à outra, rodando os pulsos, a chegá-las aos lábios e a soprar lá para dentro. A hesitares na resposta. A evitares os meus olhos.

Já não te esperava ouvir. Era tão cedo ainda. O cão a dormir, enroscado num canto.Tu a olhares para mim enquanto vertia o leite quase a ferver na caneca. E a demorares mais do que podias, mais que devias, a deixá-lo arrefecer, de olhar preso na janela e no dia a crescer lá fora.

E do silêncio mais profundo da cal das paredes, a tua voz ecoou: é hoje.

Hoje sentei-me ao sol. E ouvi esta. E senti-me viva outra vez...

...só mais uma vez.




Diz-me quanto tens de honesto quanto tens de bom

Diz-me quantas provas queres diz-me quanto sou

Já não sinto nada dentro não sei perceber...

Vai só mais uma volta, desta ninguém vai dizer.

Fossem todos os dias iguais e não perdíamos o equilíbrio.
Dava-mos passos em frente, certeiros, sem vacilar.
Não nos perdíamos com tudo o que temos em mãos e tudo o que temos em mente.

Era fácil. Era mais fácil.
Seria melhor?
Não.

Fossem todos os dias iguais e não saberíamos
que perdemos o equilíbrio, caímos.
Mas erguemo-nos outra vez.

Damos passos em frente.
Vacilantes.
Passos atrás.
Por vezes acabamos a mudar de rumo.

Fossem todos os dias iguais e não daríamos valor a tudo o que temos em mãos,
a tudo o que temos em mente
e a tudo o que guardamos no coração.

Ainda de Robert Longo.
Alguém, há poucos dias, a apelidou de "Sofrimento".
Faz sentido.

I Grieve



...they say life carries on...and on...and on...
Normalmente é assim...


...não matam mas moem.
Chegou hoje o sol.
E, mesmo com o frio que nos rodeia, sentimos o seu calor como um beijo leve.
Sentimos porque o conhemos e, mesmo na sua ausência, sabemos imaginá-lo em nós.

Reflections of a Skyline




Ainda e sempre isto...

baseado em Crave, de Sarah Kane

Shhh....

O silêncio, branco e envolvente.
Da zona de conforto.
Do corpo enroscado, morno.
Da languidez dos olhos semicerrados.


O silêncio das montanhas silenciosas à nossa volta.
O silêncio das cercas, das âncoras, dos muros.
O silêncio de tudo o que construímos.
Todos os dias.
Como cada dia.

Na passagem impossível, por entre as gotas da chuva.
Na contagem imprescindível dos momentos diluídos na memória.
A discorrerem, ferozes. Em cavalgada alucinante.
Por mim adentro, por mim acima.

Nos meus dedos, nas linhas das minhas mãos,
todos os dias contados, diluídos.

Multiplicados pela passagem, pela discórdia, pela tempestade de cada dia.

The Laughting Heart




your life is your life
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous
the gods wait to delight
in you.

Charles Bukowski

INSiDE



Directed by Trevor Sands


Amordaçamos as vontades. Acorrentamos os desejos. Cortamos as asas aos sonhos que temos.

E um dia acordamos e pedimos desculpa a nós mesmos.
Uma desculpa tímida, compartimentada entre dois ou três pensamentos indefinidos ou triviais.

Mas pedimos desculpa. De forma sentida.

E com isso, ganhamos asas novamente.

Robert Longo, série Men in the Cities




Uma Restrospectiva, no Museu Colecção Berardo
Dormentes. Adormecidos pelo frio que corta a pele, que dilacera a corrente do raciocínio.

Todos os desejos aglomerados, uns de encontro aos outros. Tentando em vão aquecer-se, tentando em vão incendiar-se. Criando faíscas que não chegam a dar origem a um incêndio.

O falso alarme de um único raio de sol. E o quente apertado no pescoço, barreira palpável da nossa perseverança.

Escudem-se, então, os desejos. Que eles se enlacem frente ao frio. E que o frio lhes passe ao largo.
"Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura."


...E a frase fica-me sendo a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer.


in Livro do Desassossego


Flume, covered by Peter Gabriel
E a meio do dia isto...

O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que [se] destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.
in "Livro do Desassossego"
... e digam-se se não faz, hoje, todo o sentido.
... há Edifícios a ruir. Mesmo ao meu lado. Edifícios inteiros que caem, que desabam desamparados. Engolidos por um chão ávido de algo que lhe alimente as entranhas.


Edifícios que o tempo roeu silenciosamente, que o tempo desgastou, que o tempo cobriu de uma camada dura e que se pensava ser impenetrável, mas que era apenas frágil na sua suposta presunção do Constante...
Fecha os olhos.
Fecha-os.

Já te disse que só resulta se fechares os olhos.

Porque precisas de imaginar-te longe, sem correntes, sem amarras.

Consegues ver? Consegues sentir?
E o arrepio na pele? Também?

Rasga os dias. Permite-te voar mesmo com asas cansadas, cortadas, dilaceradas.
Corta o frio dos céus, em voo rasante. Sobre as casas, os mares, as pessoas.

E vê os sonhos que nascem. De partos difíceis.

Já podes abrir os olhos. Estás de volta.
Mas maior. Melhor.

Bateu com a porta - perspectiva #2

Bateu com a porta.
De tal maneira que tudo estremeceu. O chão, os vidros, o seu peito. Foi a maneira que encontrou. A saída mais simples.
Porque já não sabia lutar. Ou talvez se tivesse esquecido. De lutar pelos laços que tinham criado, mantido, construído.

Nunca ninguém lhe disse. Excepto ele. Mil vezes, quantas mais? Tantas vezes o repetiu, até ao silêncio. Até ficar sem voz, até perceber que ela já não sabia lutar, já não queria lutar.

E tentou sozinho.
Queria, naquele instante, correr atrás dela, apanhá-la, agarrá-la. Beijá-la profundamente, como se isso fosse a solução. Como se isso fosse a saída. Mas ficou sentado, à espera das lágrimas que não chegavam. E deixou partir aquele ser estranho, que se tornou um estranho.

E na estanheza de tudo, na estranheza dos dois, não sabia se era essa a saída.

Bateu com a porta - perspectiva #1

Bateu com a porta.
O gesto definitivo e final de quem (acha) que fecha um capítulo. Para trás, todas as certezas. Não sabia se voltaria sequer para resgatar o que era seu. Provavelmente não. Agora, pelo menos, achava que não. Que não regressaria nunca.
Carregava incessantemente no botão do elevador e esperava que ele não a seguisse, que não abrisse a porta e desse com ela ali, ainda ali, ridiculamente à espera do elevador.
Continha as lágrimas. Não sabia se por não as ter, se por não as conseguir. E decidiu-se pela escada. Escura, raramente utilizada. Uma saída que sempre ali tinha estado. Mas que nunca tinha sido descoberta.
Deixava as certezas, os hábitos, os dias sempre iguais. Não sabia, então, que mais cedo ou mais tarde todos os dias se tornam relativamente iguais. Não se sentia desejada e, ao invés do que seria normal, o que ela já não suportava não eram os gritos, as palavras arrependidas mal eram proferidas. O que ela já não suportava eram os silêncios. A presença silenciosa daquele ser que se tinha tornado um estranho.
Desceu as escadas duas a duas. Uma saída. A única que conseguia ver. A única que quis ver.
E também há sorrisos, que de tão abertos e sinceros, iluminam e aquecem.
...mas afinal são as pontes.

Por nós erguidas, mantidas, suportadas, destemidas...

"Mankind is no Island"

As minhas coisas - parte III

Acordar sem despertador. Mesmo que seja cedo. Sentir o corpo na temperatura ideal, perfeita, aconchegante. Adormecer novamente para acordar depois e fazer tudo o resto com a calma que me é permitida.

O pequeno-almoço naquele sítio pequeno, acolhedor, diferente e perfeito.

A música alta, o acompanhar desafinado, enquanto se faz tudo o que não se fez durante a semana. Almoços de família.

Não ter planos para o resto do dia mas ter a liberdade para os traçar. Porque se é difícil manter o sorriso perante caras sempre cerradas, é também desarmante quando conseguimos fazê-lo.
E o difícil que é manter o sorriso frente a caras sempre cerradas.
Alguém diz: "nunca mais é quarta-feira".

Mas nunca mais é sexta. E nunca mais é ontem. E amanhã já é tarde. Nunca mais somos iguais. Nunca mais mudamos. Não voltamos ao princípio. Muito menos à forma primordial. Temos o mapa desactualizado. E a rede que ampara a queda tem um ou outro furo.

Mas quando for quarta-feira, damos por nós a ser capazes de fazer tudo outra vez.

A ansiar pela sexta. A repetir as coisas de ontem. A chegar mesmo a tempo. A sermos fiéis a nós mesmos. A mudar sem nos apercebermos. A fazer a volta completa. De volta a onde começámos. A desbravar caminho. E a apontar os novos trilhos descobertos. A ser grandes demais. Fortes demais. Corajosos demais para sequer pensar em escorregar por entre os furos da rede.

Bang bang...


...my baby shot me down.

As minhas coisas - parte II

Os filmes que mexem comigo. Não conseguir articular palavra à saída do cinema depois de um filme que mexeu comigo. Filmes sem pipocas.Os filmes tão bons que quase não acreditamos que existem. Os filmes que fazem parte da "lista". As frases míticas dos filmes. As cenas míticas dos filmes. Gente que nos derruba da cadeira quando aparece no ecrã.

A música que me acompanha sempre. Aquela que eu escolho e aquela que me encontra a mim. Tanta que não consigo enumerar. A música que me acentua a dor. E a que me rasga mais os sorrisos. A música extasiante e exorcizante dos concertos. As vozes roucas, as vozes míticas, as vozes inconfundíveis. As músicas de sempre. As músicas para sempre. O descobrir as letras, o decorá-las (mesmo quando não queria).

Ir de música nos ouvidos pelas ruas de Lisboa a criar filmes na minha cabeça.

E a sorrir.
... no fundo do peito bate calado...



...no peito dos desafinados também bate um coração.

As minhas coisas - parte I

O mar. A revolta do mar. A Costa Vicentina. A infinitude do oceano que me faz esquecer que, eventualmente, volta a haver terra.

Viajar. Fazer planos, traçar roteiros, criar listas. Londres, Paris, Madrid, Barcelona. Ir para fora cá dentro. Tentar ver tanto quanto possível. Estar nas filas e pensar a sorte que tenho. Estar frente a sítios míticos e não acreditar na sorte que tenho. Pensar nas viagens todas que ainda quero fazer, incluindo aquela de dois meses e meio, de carro, pela Europa, que até já tem roteiro traçado.

O cheiro das castanhas assadas. O sabor das castanhas assadas. Nas ruas de Lisboa. Descascá-las ainda demasiado quentes e comê-las ainda demasiado quentes. E chupar o sal e a cinza dos dedos no final.

Os dias muito frios, mas com sol. Os dias de sol inesperado. O entardecer. As noites quentes. Prolongadas, com conversa, com vinho, com mais ou menos gente, com a gente que importa lá.

Rir com vontade, rir com prazer, rir até não conseguir parar, até doerem os músculos da cara, a barriga. Ter ataques de riso com outra pessoa por motivos que mais ninguém percebe. Rir de coisas absurdas, rir das coisas simples. E sorrir, no final.

...e 2010 começou assim. Junto ao mar.